Em 18 de setembro de 2026, Warren Buffett deixou oficialmente o cargo de chairman do conselho de administração da Berkshire Hathaway. Depois de mais de 60 anos controlando uma das maiores empresas do mundo, o homem que transformou US$ 10.000 em mais de US$ 900 bilhões encerrou um capítulo único na história dos investimentos.
Mas o legado de Buffett vai muito além da Berkshire. Com um patrimônio estimado em aproximadamente US$ 149 bilhões em 2026 — e mais de US$ 68 bilhões já doados ao longo da vida —, o “Oráculo de Omaha” se tornou não só o maior investidor do mundo, mas também um dos maiores filantropos da história da humanidade.
Este artigo conta a história completa: da infância humilde em Omaha, Nebraska, à primeira ação comprada aos 11 anos, dos primeiros milhões à fortuna que ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado da Berkshire — e ao legado que vai sobreviver a ele por gerações.
Warren Buffett em 2026: o fim de uma era
No último dia de 2025, Warren Edward Buffett entregou o cargo de CEO da Berkshire Hathaway a Greg Abel, seu sucessor escolhido. Dias depois, em 18 de setembro de 2026, renunciou formalmente à presidência do conselho de administração.
Com isso, encerrou-se uma das gestões mais longas e bem-sucedidas da história corporativa americana. Buffett esteve no controle operacional da Berkshire por mais de seis décadas — e saiu com um histórico que provavelmente nunca será igualado.
O próprio Buffett reconheceu a transição com sua habitual modéstia disfarçada de sabedoria: ao elogiar Abel em carta aos acionistas, disse que seu sucessor “superou as altas expectativas como CEO” — uma rara aprovação pública de um homem que constrói frases como investe: com precisão cirúrgica.
O que muda na Berkshire?
Sob Greg Abel, a empresa mantém as mesmas bases que Buffett construiu: alocação disciplinada de capital, preferência por negócios com vantagem competitiva duradoura, aversão a dívida excessiva e visão de longo prazo. Abel assumiu uma empresa que vale mais de US$ 900 bilhões em valor de mercado e tem mais de US$ 300 bilhões em caixa — uma posição de força que Buffett construiu pacientemente durante anos de cautela.
Para o investidor individual, a mensagem é direta: os princípios de Buffett não morrem com sua saída. Eles estão embutidos nos processos, na cultura e na estrutura da empresa que ele deixou para trás.
Da infância à primeira ação: quem é Warren Buffett?
Warren Edward Buffett nasceu em 30 de agosto de 1930, em Omaha, Nebraska, filho de Howard Buffett, corretor e depois congressista, e de Leila Stahl Buffett.
Desde cedo, Buffett demonstrou uma atração instintiva por números e por dinheiro. Não da forma ansiosa de quem precisa de segurança — mas da forma curiosa de quem enxerga o mundo como um problema matemático a ser resolvido.
Os primeiros negócios (e a primeira lição)
Aos 6 anos, comprou pacotes de Coca-Cola no estabelecimento do avô por 25 centavos e os revendia por 5 centavos cada, lucrando 5 centavos por pacote. Aos 11 anos, entrou pela primeira vez no mercado financeiro de forma oficial: comprou 3 ações da Cities Service (hoje Citgo) a US$ 38,25 cada — usando economias próprias.
A ação caiu logo depois para US$ 27. Buffett esperou, nervoso. Quando voltou a US$ 40, vendeu para garantir o lucro. Dias depois, a Cities Service disparou para US$ 200.
A lição ficou para a vida toda: paciência supera ansiedade. Quem vende cedo demais paga o preço da impaciência.
Formação e os anos decisivos
Aos 13 anos, Buffett entregava jornais e já pagava impostos — na primeira declaração de renda, aos 14, deduziu sua bicicleta e seu relógio como ferramentas de trabalho. Aos 15, junto com um amigo, comprou uma máquina de pinball por US$ 25 e a instalou em uma barbearia. Em poucos meses, tinham três máquinas em funcionamento.
Em 1947, tentou entrar na Harvard Business School — e foi rejeitado. O destino tinha um plano melhor: matriculou-se na Columbia University, onde estudou com o professor David Dodd. Foi lá que descobriu Benjamin Graham, o pai do value investing (investimento em valor), e leu o livro que mudaria sua vida: O Investidor Inteligente.
Graham ensinou Buffett que o preço de uma ação é apenas o que o mercado cobra — o valor real é o que o negócio vale. Comprar abaixo do valor intrínseco, com margem de segurança, era a fórmula. Simples assim. Difícil assim.
O primeiro emprego na Geico — e o início da grande jornada
Após Columbia, Buffett foi trabalhar na Graham-Newman Corporation, fundo de Graham em Nova York. Em 1956, voltou para Omaha com US$ 174.000 — e fundou sua primeira sociedade de investimentos, a Buffett Partnership Ltd., com apenas sete sócios e US$ 100.000 de capital de outros investidores.
Em menos de seis anos, o fundo já valia US$ 7 milhões. Buffett tinha 32 anos. Era milionário.
A Berkshire Hathaway: de fábrica falida a maior conglomerado do mundo
Em 1962, Buffett começou a comprar ações de uma empresa têxtil decadente chamada Berkshire Hathaway. O objetivo inicial era simplesmente comprar barato e revender mais caro — o que Graham chamaria de “ponta de cigarro”: um negócio ruim, mas com uma última tragada de valor.
Mas algo mudou.
O então gestor da Berkshire prometeu recomprar as ações de Buffett a um preço combinado. Quando voltou atrás — oferecendo menos do que o prometido —, Buffett ficou furioso. Ao invés de vender, comprou até controlar a empresa.
Em 1965, com Buffett no controle, a ação da Berkshire valia cerca de US$ 7,60.
Em outubro de 2024, a ação Classe A (BRK.A) cruzou a marca de US$ 700.000 — fazendo da Berkshire a primeira empresa não-tecnológica a atingir mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado.
Os números da era Buffett (1965–2025):
| Período | Berkshire | S&P 500 |
|---|---|---|
| Retorno total (60 anos) | 5.502.284% | 39.054% |
| Retorno anual médio | ~19,9% ao ano | ~10,4% ao ano |
Para ter dimensão: US$ 1.000 investidos na Berkshire em 1965 viraram mais de US$ 55 milhões em 2025. O mesmo dinheiro no S&P 500: pouco mais de US$ 390.000.
Os grandes investimentos
Ao longo das décadas, Buffett foi construindo um portfólio diversificado de negócios e participações em empresas listadas. Os mais icônicos:
- Apple — maior posição em carteira (mais de US$ 170 bilhões no pico), comprada a partir de 2016 em um movimento que surpreendeu o mercado, dado que Buffett historicamente evitava tecnologia
- Coca-Cola — investimento iniciado em 1988; a Berkshire ainda detém ~9% da empresa
- BNSF Railway — uma das maiores ferrovias dos EUA, adquirida integralmente em 2010 por US$ 34 bilhões
- Geico — seguradora de automóveis, agora parte integral da Berkshire
- See’s Candies — adquirida por US$ 25 milhões em 1972; gerou mais de US$ 2 bilhões em lucro para a Berkshire desde então
- American Express — participação histórica que Buffett mantém há décadas
O salário de Buffett durante todo esse período: US$ 100.000 por ano — valor que nunca foi reajustado em mais de 40 anos. Sua riqueza vem exclusivamente da valorização das ações da Berkshire que ele possui.
A filosofia de Buffett: o que o tornou diferente
Warren Buffett não inventou o value investing — isso foi Benjamin Graham. O que Buffett fez foi evoluir a filosofia e adaptá-la a uma escala que Graham nunca imaginou.
Junto com Charlie Munger, seu sócio por mais de cinco décadas (falecido em novembro de 2023, aos 99 anos), Buffett desenvolveu princípios que qualquer investidor — de qualquer país, com qualquer capital — pode aplicar:
1. Compre negócios, não ações
“Quando compramos ações, nós compramos pedaços de negócios”, disse Buffett repetidas vezes. A ação é apenas o veículo. O que importa é a empresa por trás dela: sua vantagem competitiva, a qualidade da gestão, a capacidade de gerar caixa.
2. O fosso (moat) é tudo
Buffett popularizou o conceito de economic moat — a vantagem competitiva duradoura que protege um negócio da concorrência. Marcas fortes (Coca-Cola), efeitos de rede (American Express), custos de troca altos (Burlington Northern), economias de escala (BNSF). Sem fosso, qualquer lucro é temporário.
3. Tenha medo quando os outros são gananciosos, e seja ganancioso quando os outros têm medo
A frase mais citada de Buffett captura sua abordagem anticíclica. Nas crises de 2008, 2020 e outras quedas de mercado, enquanto investidores vendiam em pânico, a Berkshire comprava. O medo do mercado é, para Buffett, um desconto.
4. O tempo é seu maior aliado
Mais de 90% da fortuna de Buffett foi acumulada depois dos 65 anos. Não porque ele se tornou melhor investidor com a idade — mas porque os juros compostos têm seu efeito máximo no longo prazo. Começar cedo e não interromper o processo é mais importante do que qualquer habilidade de análise.
5. Nunca perca dinheiro
A primeira regra de Buffett: não perca dinheiro. A segunda regra: nunca se esqueça da primeira. A preservação de capital é o pré-requisito para a acumulação de riqueza — quem perde 50% precisa de um retorno de 100% apenas para voltar ao ponto de partida.
O legado filantrópico: mais de US$ 68 bilhões doados
Em 2006, Warren Buffett fez um anúncio que chocou o mundo financeiro: doaria a maior parte de sua fortuna à Fundação Bill & Melinda Gates — e não criaria uma fundação própria com seu nome. A razão era pragmática: Gates e Melinda já tinham a infraestrutura para alocar o capital com eficiência máxima.
Desde então, Buffett doou bilhões de dólares anualmente em ações da Berkshire Hathaway para cinco fundações: a fundação de Bill e Melinda Gates e as fundações criadas por seus três filhos (Susan Alice, Howard Graham e Peter).
Em 2010, ao lado de Bill Gates, fundou o Giving Pledge — compromisso pelo qual bilionários se comprometem a doar a maior parte de sua fortuna em vida ou por testamento. Hoje, mais de 230 pessoas assinaram o compromisso.
Os números da filantropia de Buffett:
- Compromisso original: 99% de seu patrimônio
- Doado até 2026: mais de US$ 68 bilhões (estimativa)
- Se não tivesse doado nada, seu patrimônio seria superior a US$ 200 bilhões
- Beneficiários principais: saúde global, educação, redução da pobreza
No início de 2026, Buffett acelerou o ritmo das doações: “Preciso acelerar o ritmo das doações em vida às fundações de meus filhos”, disse em comunicado. Aos 95 anos, ele está correndo não contra o mercado — mas contra o tempo, para garantir que o capital seja distribuído conforme planejado.
Seus filhos Susan, Howard e Peter não herdarão sua fortuna pessoal — herdarão a responsabilidade de administrar fundações que distribuirão centenas de milhões de dólares por ano para causas escolhidas por eles.
O que os investidores brasileiros podem aprender com Buffett
A filosofia de Buffett foi construída no mercado americano — mas seus princípios são universais. Para o investidor brasileiro, existem paralelos diretos:
O moat existe na B3
Empresas como Itaúsa (ITSA4), Ambev (ABEV3), WEG (WEGE3) e BB Seguridade (BBSE3) têm características que Buffett reconheceria imediatamente: marcas fortes, posições dominantes em mercados com barreiras de entrada, geração de caixa consistente. A análise de fosso competitivo vale tanto em Omaha quanto em São Paulo.
Dividendos são a versão brasileira da filantropia composta
No Brasil, o investidor individual que busca renda passiva via dividendos segue, sem saber, uma lógica parecida com a de Buffett: comprar participações em negócios sólidos e deixar que o tempo e os juros compostos trabalhem a seu favor. Não é à toa que o maior investidor individual da B3, Luiz Barsi, construiu sua fortuna bilionária usando exatamente essa lógica.
A taxa Selic não existe nos EUA — mas a paciência funciona em qualquer mercado
Um dos maiores desafios para o investidor brasileiro é a competição com a renda fixa: com a Selic em 13,75% (outubro de 2026), o Tesouro Direto paga bem. Mas Buffett não precisou de Selic para transformar US$ 10.000 em bilhões. A renda variável, no longo prazo e com critério, vence.
“O mercado de ações é um dispositivo para transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes.” — Warren Buffett
Perguntas Frequentes sobre Warren Buffett
Qual é o patrimônio atual de Warren Buffett? Em 2026, o patrimônio de Warren Buffett é estimado em aproximadamente US$ 149 bilhões, segundo a Forbes. Sem as doações acumuladas ao longo das últimas duas décadas, seu patrimônio ultrapassaria US$ 200 bilhões.
Quanto Warren Buffett já doou? Buffett doou mais de US$ 68 bilhões desde 2006, principalmente para a Fundação Bill & Melinda Gates e para as fundações filantrópicas de seus três filhos. Seu compromisso público é doar 99% de seu patrimônio total.
Qual foi o primeiro investimento de Warren Buffett? Aos 11 anos, em 1941, Buffett comprou 3 ações da Cities Service (hoje Citgo) a US$ 38,25 cada. As ações caíram logo depois, mas ele esperou e vendeu quando voltaram a US$ 40 — perdendo o ganho de mais de US$ 200 que viria dias depois.
Quem assumiu a Berkshire Hathaway após Buffett? Greg Abel assumiu como CEO da Berkshire Hathaway em 1º de janeiro de 2026, após a aposentadoria de Buffett do cargo executivo. Em 18 de setembro de 2026, Buffett deixou também a presidência do conselho de administração, encerrando formalmente sua passagem pela empresa que controlou por mais de 60 anos.
Qual é o retorno histórico da Berkshire Hathaway? De 1965 a 2025, a Berkshire Hathaway acumulou um retorno total de aproximadamente 5.502.284% — equivalente a cerca de 19,9% ao ano. No mesmo período, o S&P 500 rendeu cerca de 39.054%, ou 10,4% ao ano.
Por que Buffett doou para a fundação de Gates e não criou a sua própria? Segundo o próprio Buffett, a Fundação Bill & Melinda Gates já tinha a infraestrutura, os processos e a capacidade de alocar capital com eficiência máxima nas áreas prioritárias. Criar uma fundação própria seria reinventar a roda — e desperdiçar tempo que poderia ser usado para gerar mais retorno e más doações.
Qual foi o maior erro de investimento de Buffett? O próprio Buffett cita a compra da Berkshire Hathaway como seu maior erro — não porque a empresa não prosperou, mas porque foi uma decisão motivada por emoção (raiva do gestor que não cumpriu a palavra) e não por análise racional. Se tivesse aplicado o mesmo capital em seguro, teria ganho ainda mais.
O que é o Giving Pledge? O Giving Pledge é uma iniciativa criada por Warren Buffett e Bill Gates em 2010, pela qual bilionários se comprometem publicamente a doar a maior parte de sua fortuna em vida ou por testamento. Mais de 230 signatários de dezenas de países já aderiram ao compromisso.






